Resenha #11 – Rififi (Du Rififi Chez Les Hommes, 1954)

 É fato: filme bom tem que ser visto no mínimo duas vezes.  No mínimo! Ao rever “Rififi”, tive mais uma confirmação disso.  É um daqueles filmes capazes de agradar mais a cada vez que se assiste.

 

Rififi” é certamente um dos melhores representantes de um subgênero que costuma render ótimos filmes: o do grande roubo, indo desde sua preparação até as conseqüências, com o inevitável esfacelamento da quadrilha.  Dentre os melhores deste subgênero, citamos “O Segredo das Jóias” (The Asphalt Jungle, 1950, de John Huston) e “O Grande Golpe” (The Killing, 1956, de Stanley Kubrick).

 

Como todo filme de assalto que se preza, os personagens dos criminosos são bem desenvolvidos e fogem ao clichê do sujeito malvado.  Cada um tem as suas motivações e justificativas para o golpe.  E em geral há sujeitos ainda mais malvados do que eles (normalmente uma quadrilha rival).  Tudo isso somado faz com que criemos até uma certa empatia com os assaltantes, chegando a torcer abertamente por eles.

 

Mas o que talvez torne este filme ainda melhor do que os seus similares de Hollywood é a sequência do roubo em si, com cerca de 27 minutos completamente mudos (sem falas ou música). Ficamos presos à ação, como se estivéssemos participando dela, de tal forma que mal percebemos a falta de diálogos.

Jean Servais está fantástico no papel de Tony Le Stephanois, o envelhecido e ainda respeitado bandido.  Recém-saído da prisão, um pouco antes da hora por ter obtido uma redução na pena por bom comportamento.  Quando os amigos Jô e Mario lhe propõem um roubo relativamente simples (da vitrine de uma joalheria) ele em princípio recusa, mas pouco depois percebe que lhe restam poucas opções além do retorno à vida de crime.  Só que propõe algo mais grandioso:  o assalto não deveria ser somente à vitrine;  o alvo seria o cofre, considerado inexpugnável.

 

A quadrilha se organiza:  Tony é o cabeça;  Mario é, por assim dizer, o produtor do golpe, providenciando todo o necessário e, inclusive, um esconderijo em sua casa para as jóias roubadas; César (exímio arrombador, interpretado pelo próprio diretor Jules Dassin) é trazido especialmente para o golpe;  e Jô, agora um pai de família, participa um tanto relutante.

 

O diretor, Jules Dassin, americano de nascimento, teve uma carreira apenas regular nos EUA, com algum destaque apenas nos seus filmes noir, do final da década de 40 (como “Brutalidade”, “Cidade Nua”, “Mercado de Ladrões” e especialmente “Sombras do Mal”).  Sua inclusão na “lista negra” do macarthismo, após ser denunciado pelo colega Edward Dmytrik, provocou sua ida para a Europa, onde fez, talvez, os seus filmes mais conhecidos (“Rififi”, “Topkapi”, “Nunca aos Domingos”).

 

por Alexandre Cataldo

3 comentários sobre “Resenha #11 – Rififi (Du Rififi Chez Les Hommes, 1954)

  1. “Os ternos desconhecidos” (I Soliti Ignoti, 1958), do Mario Monicelli, é uma divertidíssima paródia de Rififi. A cena do assalto, que também prendeu minha respiração por 27 minutos, é de bolar de rir na comédia italiana. Se em Rififi temos o silêncio, em Monicelli temos assaltantes despreparados (que a todo momento dizem estar fazendo um crime preciso, profissional, “científico”) que não conseguem calar a boca. Recomendo.

    Curtir

Deixe aqui sua opinião sobre isso!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s