Resenha #12 – O Nascimento de Uma Arte – Parte 3: A Escola de Brighton

Robert William Paul

Em 1900, uma crise no cinema mundial instalava-se: este deixava de ser novidade nas salas de projeção e migrava para o cinema de feira.  Na Grã-Bretanha o impacto foi menor e lá surgiam pioneiros como Robert William Paul e Charles Urban, americano expulso de sua terra natal pela guerra das patentes.  William Paul começaria sua jornada no cinema fazendo atualidade e em 1899 construiria seu estúdio.  Um de seus filmes mais importantes foi “Uma louca corrida de automóvel em Picadilly Circus” (Piccadilly Circus: Blackfriars Bridge), em que utilizou pela primeira vez, de forma consciente, o efeito do ‘travelling’ dramático para pontuar a ação, colocando o espectador em sintonia com acidentes automobilísticos.  O uso destas e outras técnicas foram melhores desenvolvidas por dois colegas de Paul, James Willianson e George Albert Smith, ambos oriundos de Brighton.

 

George A. Smith

Willianson, ao filmar em 1899, “As Regatas de Henley” (Henley Regatta), se torna um dos precursores da montagem, ainda embrionária, contando os acontecimentos do evento.  Usando-se deste estilo, teria recriado outro evento importante, com o filme “Ataque a uma missão na China (Attack on a China Mission).  Os cinco minutos da obra eram divididos em quatro quadros e entre eles haviam transições que denotavam uma articulação da linguagem cinematográfica.  Era o precursor do cinema aventura e trazia consigo o conceito da donzela em apuros e seus salvadores, em imagens alternadas por uso da montagem.  Este tipo de narrativa parece ter sido monopólio dos Ingleses, por volta de 1900.

Grandma’s reading glass

George A. Smith precedeu William Paul e provavelmente Méliès no uso da trucagem de Sombreimpressão (uso de duas imagens sobrepostas) e patenteou a descoberta.  Teve a idéia também de alterar planos gerais com planos próximos, na mesma cena, criando o que foi chamado posteriormente de planificação. Com ele e seus filmes Grandma’s reading Glass e As seens through a telescope surge o verdadeiro conceito de montagem, diferente da utilizada por Méliès, que mantinha sempre o ponto de vista e a forma teatral. O segundo curta, já trabalha com o aspecto voyeurístico do cinema e Smith transporta o espectador para dentro do filme, unindo o ponto de vista do personagem com o das pessoas que assistiam a estes dois curtas.  Este artifício de montagem, mesmo assim, continuava servindo como uma trucagem: a visão por meio de equipamentos óticos (a lupa, o telescópio).  Ele iria ratificar sua descoberta em The Sick Kitten  (AKA The Little Doctor), de 1903, quando corta de um plano geral para a cabeça de um gato bebendo leite, não usando para tanto, nenhum pretexto como nos filmes anteriores.

The Sick Kitten

A Inglaterra, neste período, foi a pátria de vários gêneros cinematográficos. A perseguição, já esboçada por Willamson, caiu no cotidiano dos realizadores ingleses e a câmera passava cada vez mais a incorporar o espectador ao filme, trazendo estes para dentro dos enredos.  Alfred Collins, funcionário do braço inglês da Gaumont, especializava no gênero cômico, e também trazia em seus filmes uma técnica apurada.  Em Marriage by Motor, utiliza-se de ‘travellings’, panorâmicas e do contra-campo para indicar a visão de perseguidor e perseguido, numa linguagem menos evoluída, que Griffith consagraria em 1915, com “Nascimento de uma Nação”.  O realismo social passou também a dominar a produção inglesa, com os filmes abordando um contexto mais humano e demonstrando um gosto pelo real.

Rescued by Rover

Em 1908, a crise se instala de vez e poucos são os que sobrevivem a ela. Cecil Hepworth, autor de Rescued by Rover, é um dos únicos produtores artesanais a passar ileso. Smith e Williamson viram técnicos, os feirantes Haggar e Mottersahw desaparecem do mapa. Firmas como a Warwick e a Gaumont são mais distribuidoras de filmes estrangeiros do que produtoras. Charles Urban e sua Urban Trading também sobrevive.  Este americano que viera para Londres, se sustenta comercialmente com o slogan: “Pomos o mundo ante os vossos olhos”, dividindo este mercado com a Warwick. É por volta desta época que nasce o primeiro jornal cinematográfico, sob a batuta de Charles Pathé, que cria em Paris uma sala especializada para projetar os filmes trazidos por seus operadores do resto do mundo: O “Pathé Journal”. Mas isso será história para uma próxima resenha.

 

por Fred Almeida

Referência Bibliográfica:
SADOUL, Georges. História Do Cinema Mundial. São Paulo: Ed. Martins. 1963.

Deixe aqui sua opinião sobre isso!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s