Resenha #13 – Homem Mau Dorme Bem (Warui yatsu hodo yoku nemuru, 1960)

“Há algo de podre no reino do Japão”. Esta sentença parafraseada de Hamlet serve muito bem para ilustrar a idéia por trás deste filme de Akira Kurosawa, certamente uma adaptação bastante livre do romance de Shakespeare. É notória a apreciação do diretor pelo escritor, basta observar alguns de seus longa-metragens como “Ran” e “Trono Manchado de Sangue”, adaptados de Rei Lear e Macbeth, respectivamente.

 

Uma mistura de thriller, drama e – por que não? – film Noir, “Homem Mau Dorme Bem” é um filmaço, daqueles que merecem estar entre os grandes feitos de qualquer diretor. Mas Kurosawa não é “qualquer diretor” e talvez por isso esta produção não seja muito lembrada na filmografia do japonês, pois afinal de contas, com tantos grandes obras do porte de “Os Sete Samurais”, “Yojimbo“, “Rashomon“, entre tantas outras, uma ou outra acaba sendo esquecida. Outro diretor de menor porte talvez tivesse este como uma de suas melhores realizações na carreira.

 

A história é sobre um homem que, para vingar a morte de seu pai, se casa com a filha de um magnata de uma corporação que usa de corrupção e poder para tentar alcançar um posto no alto escalão da política Japonesa. Com Toshiro Mifune e Takashi Shimura em papéis-chave e uma ótima atuação de Masayuki Mori como o diretor corrupto, o filme nos proporciona grandes cenas, que aos poucos vão nos mostrando o que está por trás de estranhos eventos que vão acontecendo após o casamento da filha do executivo da empresa.

O filme concorreu ao Urso de Ouro em Berlim e tem ainda como virtudes uma fotografia bastante sombria (Yuzuru Aizawa) e a boa – e opressiva – trilha sonora de Masaru Sato. O roteiro de duas horas e meia, que pode ser dividido em dois – começa num thriller e termina num drama – sustenta um filme que funciona muito bem e não deixa de promover gratas surpresas, ainda mais se o espectador for assisti-lo esperando que este possa ser “aquele” filme de Kurosawa a ser esquecido. Não é. E nunca é, sempre podemos aproveitar algo de todos os 30 filmes desse brilhante e competente diretor japonês.

por Fred Almeida

3 comentários sobre “Resenha #13 – Homem Mau Dorme Bem (Warui yatsu hodo yoku nemuru, 1960)

  1. Um dos meus filmes preferidos do Kurosawa. E talvez seja o melhor não-épico dele, já que é uma história que se passa no “Japão moderno”, industrializado, sem aquela “aura” característica dos filmes de samurai.
    As atuações são muito boas, especialmente por revelar que aqueles atores costumeiros nos filmes de Kurosawa (Mifune, Shimura, Mori e, como não citar, Kamatari Fujiwara, que aqui neste filme tem um papel bem destacado, quase de segundo protagonista) não sabem atuar apenas nos jidai-geki (filmes históricos de samurai), mas também em histórias contemporâneas.
    Uma vez li que o compositor Masaru Sato quis dar, à música-tema do filme, tons de “selva”, para contextualizar o que o espectador iria ver em seguida (um relato da selvageria da corrupção).

    Curtido por 1 pessoa

    • Esse é daquelas pequenas pérolas que encontramos na filmografia do Kurô… Há algumas delas se saímos do eixo “Rashomon”, “Os Sete Samurais”, “RAN”, “Trono Manchado de Sangue”, “Sonhos”… que acredito serem os mais conhecidos dos cinéfilos em geral…

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