Resenha #14 – O Nascimento de Uma Arte – Parte 4: Georges Méliès

Georges Méliès

Logo após a criação do cinema pelos irmãos Lumière, uma injeção de ânimo foi aplicada à nova mídia por meio do inovador trabalho do francês Georges Méliès.  Coube a ele criar o espetáculo cinematográfico, trazendo o palco teatral para mais próximo do novo invento dos irmãos Lumière.  Aos 35 anos de idade, Méliès era um rico e próspero diretor de teatro de ilusionismo e ao presenciar a apresentação do cinematógrafo no Grand Cafè de Paris, ficou maravilhado.  Propôs a Antoine Lumière comprar a máquina criada pelos seus filhos, mas este recusou a oferta, alegando que aquilo tudo era passageiro e que não havia futuro no experimento.  Georges Méliès não se convenceu e perseguiu sua ideia original, adquirindo um projetor ótico semelhante, de outro pioneiro que já conhecemos por esta série de textos, o inglês e também realizador de filmetes da chamada “Escola de Brighton”, William Paul.

L’Escamotage d’une Dame

Os primeiros filmes de Méliès se limitavam a cópias dos já produzidos pelos Lumière.  Seu grande passo em nova direção foi a descoberta acidental do efeito da trucagem. Com esta técnica Méliès torna-se um pioneiro e juntamente com a construção de um estúdio em sua propriedade em Montreuil, começa a produção efusiva de novos filmes.  O efeito da trucagem foi descoberto depois que filmou um carro numa rua. A câmera emperrou e quando voltou a funcionar, já havia um carro funerário no lugar do automóvel que antes estava lá.  Ao reproduzir as imagens daquele dia, veio a descoberta: o carro comum havia se “transformado” no carro funerário, como num passe de mágica.  A partir daí, esta técnica se tornaria recorrente em sua obra e apareceria pela primeira vez no curta L’Escamotage d’une Dame (O Desaparecimento de uma Dama).  Entre outros artifícios utilizados por ele em suas produções estavam a exposição múltipla, o truque conhecido por “magia negra” e o uso de maquetes.  Todos estes efeitos tinham a intenção de surpreender e sempre eram utilizados como truques.

 

No entanto, a genialidade presente na obra do francês se consolidou pelo fato dele utilizar em suas filmagens a maior parte dos meios fundamentados pelo teatro: argumentos, atores, figurinos, caracterizações, cenários, divisão em cenas (ou atos), etc.  Tais características estão presentes, de forma diversa, no cinema como hoje o conhecemos.  Sua maior limitação foi manter-se exclusivamente no ponto de vista do espectador.  Todos os seus filmes têm o mesmo ponto de vista: o da platéia.  Seu cinema se restringiu ao que se chamou de “teatro filmado” e de 1900 até o fim de sua carreira sua evolução foi imperceptível.

 

O Caso Dreyfus

Outra importante contribuição deste francês para o cinema foi a criação dos então chamados ‘one-reelers’ – filmes de um rolo.  A primeira destas investidas foi a encenação da décima parte de uma versão do caso Dreyfus, em 1899.  L’Affaire Dreyfus (que muito depois, já na era do cinema falado, teria o julgamento imortalizado por Paul Muni em A vida de Emile Zola) tinha cerca de quinze minutos, aproximadamente o tamanho de um rolo de filme.  Outro filme de igual importância foi Cinderela, de 1902, que se constituía de vinte cenas.

 

O apogeu da filmografia de Méliès foi o filme que o celebrizou mundialmente e que representou grande êxito comercial e artístico: Voyage dans la Lune, de 1902.   Viagem à Lua era baseado em romances de Julio Verne e H.G. Wells, mas seu conteúdo carrega um toque particular de Méliès, um humor fácil e arrebatador.  A história relata um grupo de astrônomos que decide ir à Lua, utilizando-se de uma cápsula no formato de uma bala.  A chegada da espaçonave na lua é mostrada pela única verdadeira seqüência do filme: antes de receber a “bala” no olho, a lua se aproxima da câmera numa espécie de zoom invertido, depois há um corte e vemos a cápsula chegando ao chão do satélite.  O sucesso do filme foi estrondoso e foi ainda maior nos Estados Unidos, onde várias réplicas surgiram.  Este fato causou estranheza a Méliès, já que ele havia mandado para lá apenas algumas cópias. Foi forçado então a abrir uma sucursal em Nova York, comandada por seu irmão Gaston, para defender seus direitos.

 

Viagem à Lua

Por volta de 1906, o cinema de Méliès já estaria ultrapassado.  A partir desta época, ambiciona competir com Pathé e passa a produzir filmes cômicos e medíocres, caindo na vulgaridade e agravando a situação financeira de seu empreendimento.  Mais tarde, é obrigado a recorrer a Pathé para sobreviver no meio.  A sucursal americana também ia mal das pernas e acabou por levar a derrocada do estúdio de Motreuil, que termina transformado em teatro.  Num ato derradeiro, acabou por vender a película de seus filmes, que tristemente viram pentes e escovas de celulóide.  Em 1938, o gênio morre sem conhecer o prestígio que hoje possui no meio cinematográfico, a ponto de cineastas como Martin Scorsese, dedicar um filme ao brilhantismo de Méliès: A Invenção de Hugo Cabret.

 

por Fred Almeida

Referência Bibliográfica:
SADOUL, Georges. História Do Cinema Mundial. São Paulo: Ed. Martins. 1963.

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