Resenha #17 – Noites Brancas (Le Notti Bianche, 1957)

Luchino Visconti sempre terá seu nome ligado ao movimento neo-realista italiano, afinal, foi um dos seus precursores.  Mas a verdade é que a sua “poesia” fez com que sua obra se afastasse um pouco daquelas de seus colegas de movimento, como Rossellini e De Sica, garantindo-lhe sucesso em filmes de vários gêneros.

 

De seus filmes a que assisti, “Noites Brancas” é o que mais me envolveu (mais até que o excelente “Rocco e Seus Irmãos”).  Ouso dizer que se trata de um filmaço, com vários pontos fortes, a começar por uma boa história, baseada no conto homônimo publicado em 1848 pelo escritor russo Fiodor Dostoievsky. Ambientanda em São Petersburgo, a história de Dostoivesky acompanha um protagonista sonhador, que cria uma utopia de amor ideal ao esbarrar com uma desconhecida.

 

Visconti não apenas “filmou o livro”, mas transportou para as telas a sua própria “leitura” da obra de Dostoievsky, alterando levemente alguns pontos.  Além de termos o cenário mudado para Livorno, o protagonista Mario (Marcello Mastroianni) não domina completamente o filme.  A personagem da desconhecida, Natalia (Maria Schell), ganha força e passa a ser praticamente a protagonista, já que são as suas utopias (e não as de Mario) que dominam a história.

 

As noites brancas do título simbolizam a solidão dos dois personagens.  Tanto Mario quanto Natalia são seres solitários e ansiosos por encontrar alguém.  Ela demonstra, já de início, uma quase infantilidade no modo como lida com o amor.  Já Mario, que a princípio parece ser até mesmo um tipo cínico e aproveitador, só mais tarde demonstra ser, ele também, um sonhador.

 

As filmagens foram todas feitas em estúdio, tendo sido construído todo um quarteirão de uma fictícia Livorno.  Visconti orientou os designers para que não se fizesse uma reconstrução perfeita, para que o filme se afastasse ainda mais do neo-realismo.

As interpretações de Maria Schell e Mastroianni são muito boas, principalmente se levarmos em conta que são praticamente os únicos personagens em tela, durante a maior parte do tempo.  Maria não sabia falar uma palavra de italiano quando foi contratada para fazer o filme.  Aprendeu o suficiente para o filme em apenas 15 dias.

 

Mas de todos os pontos altos do filme, talvez o de maior destaque seja a belíssima fotografia de Giuseppe Rotunno, ainda em início de carreira.  Na década de 60, Rotunno se tornaria um dos mais importantes diretores de fotografia da Europa, trabalhando com nomes como Fellini e, posteriormente, Mike Nichols e Bob Fosse (em “All That Jazz”, trabalho que lhe valeu indicação ao Oscar, em 1979).  Neste filme em especial, o trabalho de Rotunno é fantástico, tendo usado, por exemplo, centenas de véus finíssimos, pendurados pelo set, para criar a atmosfera quase onírica de um constante nevoeiro.

por Alexandre Cataldo

Um comentário sobre “Resenha #17 – Noites Brancas (Le Notti Bianche, 1957)

  1. Resenha escrita em 2006, quando vi o filme pela primeira vez. Depois daquilo, consegui ver todos os do Visconti. E Rocco e Seus Irmãos se firmou como meu predileto. Mas Noites Brancas (que fui rever agora em 2016, 10 anos depois), continua sendo um filme bastante interessante, dos melhores de Visconti.

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