Resenha #25 – Trono Manchado de Sangue (Kumonosu-jô / Throne of Blood, 1957)

 Quando filmou Trono Manchado de Sangue, em 1957, Kurosawa satisfez um longo desejo seu, que era o de adaptar seu livro preferido de Shakespeare para o cinema. Ele voltaria a ter contato com a obra do escritor 28 anos depois, rodando Rei Lear sob o título de Ran (1985), mas antes viria a beber na fonte de Hamlet para realizar a película Homem Mau Dorme Bem, em 1960.

 

Em Trono Manchado de Sangue, Kurosawa conseguiu atingir um meio termo entre elementos do ocidente e do oriente a partir de um choque que acabou por gerar uma obra riquíssima em detalhes e significados, sem no entanto sacrificar o melhor destes dois mundos. A partir do texto de Macbeth, o diretor adicionou elementos tipicamente japoneses, como a utilização de representação dos atores proposta pelo teatro e suas máscaras. A escolha pela proximidade com esta tradição japonesa se deu porque Kurosawa observou logo de início que o papel das três bruxas poderia ser interpretado de forma diferente pelo público oriental, que tende a absorver estes personagens de outra forma se comparado com os ocidentais. A utilização dos movimentos limitados e pré-determinados típicas de um ator no teatro , mostra-se presente nas figuras do espírito da floresta (em vez das três bruxas do texto original) e de Asaji (o equivalente de Lady Macbeth), a esposa de Washizu (o papel de Macbeth). Além disso, há outra incorporação do teatro no filme, na medida em que a caracterização destes três personagens citados acima, se baseia em máscaras utilizadas pelo teatro oriental, reforçando inclusive o seu significado para os personagens no filme, que em muito se assemelham ao perfil dos personagens que são representados em peças do Nô.

 

O que parece ter atraído Kurosawa a Macbeth é o fato de o perfil do personagem ter certa afinidade com outros dos personagens do diretor em filmes anteriores, como os que aparecem em seus dois filmes de estréia, “A Lenda do Judô I e II”. Estas características de heróis trágicos, limitados por seus destinos, são típicas dos protagonistas de seu filmes, e isso se estende por toda a obra do japonês. Mas não foi só isso que o cativou, afinal de contas o texto se apresenta como “uma história tão verdadeira agora como na época em que foi escrita” (como enfatizava o próprio Kurosawa).
SPOILERS

Há também momentos no filme que não fazem parte da peça, como o inesquecível momento da entrada dos pássaros no castelo (e a consequente confusão dos envolvidos sobre se era um bom ou mau presságio) e a incomparável cena final, com uma flechada rompendo a jugular de Washizu, que morre traído por seu próprio exército, em lugar do que se vê na peça do inglês, que ensaia uma luta mortal entre Macduff e Macbeth, que resulta na morte do segundo pela espada do primeiro. Outra intervenção de destaque de Kurosawa é em cima das características do próprio Washizu.

 

FIM SPOILER

 

É nesta utilização apropriada e diversa de forma e conteúdo que o diretor consegue tornar Trono Manchado de Sangue uma obra a ser apreciada e que consegue ainda transcender o texto original de Shakespeare a seu próprio modo, agregando a ele diversos valores da tradição oriental japonesa, condimentados com uma certa crítica a eventos da época em que o filme foi rodado e ainda nos brindar com uma mis-en-scène brilhante e plasticamente interessante.  Agora, diferentemente do que se pensava, em geral, na época, muitos críticos de cinema são incisivos ao colocar este filme – e o diretor – como um dos que melhor representa obras do escritor inglês que foram adaptadas para as telas.

 

por Fred Almeida

Um comentário sobre “Resenha #25 – Trono Manchado de Sangue (Kumonosu-jô / Throne of Blood, 1957)

  1. Nunca é demais relembrar esse belo mosaico de referências que “formaram” o grande diretor que foi Kurosawa. Além da atração por Shakespeare, cabe comentar que ele adaptou Dostoievski (O Idiota), Gorki (Ralé), e ainda 3 obras de um autor importante no Japão (Shugoro Yamamoto), Sanjuro, Barba Ruiva e Dodeskaden. E também era um interessado por artes plásticas (como vai ser magistralmente retratado num dos episódios de Sonhos, além as “pinturas” que são seus grandes épicos coloridos, Kagemusha e Ran).
    Ah, como eu gosto de falar do Akira! Um dia terá a obra completa abordada no podcast.

    Curtido por 2 pessoas

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