Resenha #27 – Os Demônios (The Devils, 1971)

Ken Russell era um diretor destemido. A década de 70 foi um período de experimentação e ousadia para a arte cinematográfica. A soma destes dois fatores resultou no intenso “Os Demônios”, ótimo filme britânico sobre o suposto caso de possessão demoníaca de um grupo de freiras na cidade francesa de Loudun no século XVII.

 

O longa foi severamente perseguido após seu lançamento no início da década de 70 e sofreu diversos banimentos e cortes em muitos países em que chegou a ser distribuído. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, recebeu o código de censura máximo (Rated “X”), algo esperado quando vemos seu conteúdo. Russell conta a história do padre católico Urbain Grandier (Oliver Reed em ótima atuação) que é julgado por bruxaria após ser acusado por uma freira corcunda e sexualmente reprimida (Vanessa Redgrave) de ter assumido a forma de um demônio “Incubus” que a visitou em sua cama ao longo de noites solitárias. O diretor não poupa a Igreja Católica na abordagem que faz da história e torna o filme bastante gráfico e intenso, com muitas sequências de nudez, sexo e violência. Na versão “uncut” do filme, há inclusive cenas de masturbação de clérigos, estejam possuídos ou não. Uma estátua de Cristo é incluída numa orgia de freiras que buscam satisfação sexual em diversas partes do cruxifixo, em pleno julgamento de Grandier (mesmo no Blu-ray lançado no exterior, se percebe que este trecho do filme se origina de uma cópia em VHS, devidamente editada para pertencer à versão “sem cortes” da película). O próprio Grandier é um pároco que se utiliza de sua posição para levar beatas para a cama. Não é à toa que o filme até hoje recebe uma limitadíssima distribuição até mesmo no mercado de Home Video.

 

Mas deixando-se de lado a ousadia e as polêmicas em torno da produção, o filme tem força ao fazer uma reflexão sobre a repressão sexual e o papel da religião neste contexto. Saído de uma época na qual os hippies pregavam a prática do “amor livre”, o filme consegue utilizar o texto do livro e da peça nos quais se inspirou (The Devils of Loudun, de 1952 e The Devils, de 1960, respectivamente) de forma equilibrada com as questões contemporâneas que deviam estar latentes em 1971. As fortes atuações de Oliver Reed e Vanessa Redgrave contribuem para a qualidade do filme, assim como a direção de arte e os enquadramentos escolhidos pelo diretor Ken Russell. E quem curte os filmes de James Bond ainda irá gostar da participação do ator Michael Gothard, que em 007, Somente para Seus Olhos faz o personagem Locque.

 

por Fred Almeida

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