Resenha #28 – Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951)

Um dos grandes filmes de Hitchcock. Menos famoso do que deveria, já que nunca chegou a ser tão popular como Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai e Psicose, por exemplo, “Pacto Sinistro” é baseado em uma história escrita por Patricia Highsmith (que aparece no filme, como uma mulher que trabalha na loja de discos em que a personagem Miriam trabalha). O roteiro teve a co-autoria de Raymond Chandler, um dos mais importantes autores americanos de romances policiais.

 

Dualidade. Esta é a palavra-chave da história. Temos dois protagonistas, dois completos estranhos que se encontram num trem. São, ao menos aparentemente, dois homens completamente diferentes nos gostos, na forma de encarar a vida e na maneira de se comportar. Bruno Anthony (Robert Walker) é um boa-vida, mimado pela mãe e altamente criticado pelo pai. É espalhafatoso, exagerado, falador. Guy Haines é um jogador de tênis, prestes a se divorciar da esposa e com intenção de se casar com a filha de um senador. É tímido, contido e discreto. A oposição dos dois nos é indicada à exaustão, a começar pelos sapatos que cada um usa e pelo modo de caminhar do táxi até a plataforma. Aliás, isso é tudo o que vemos na abertura do filme (os pés dos protagonistas). É assim que Hitchcock nos apresenta os dois homens. E só vemos os seus rostos e ouvimos suas vozes quando o “encontro” já está sacramentado, após um esbarrão entre os pés. A dualidade continua ao longo de todo o filme, reforçada pelos conceitos de culpa e inocência, bem e mal. E aqui temos a grande ironia da proposta dos “crimes trocados”, lançada e executada parcialmente por Bruno. O inocente Guy, sem cometer crime algum, é o grande beneficiado, já que consegue ver-se livre de sua esposa e, conseqüentemente, em condições de se casar com a filha do senador. Hitchcock já nos havia mostrado o quão culpado ele poderia ter sido, quando, enfurecido pela mudança de atitude da esposa em relação ao divórcio, Guy grita ao telefone que tinha vontade de estrangular Miriam.

 

A maestria de Hitchcock está presente em inúmeros momentos do filme. Na já comentada abertura, em que vemos apenas os pés dos protagonistas, no momento do assassinato de Miriam, mostrado a nós apenas pelo reflexo nos óculos dela, caídos na grama, nas cenas feitas nas quadras de tênis e nas sequências finais. Além de tudo, temos ainda o desenvolvimento do recurso que Hitch apelidou de “MacGuffin”, no qual é atribuída aparente importância a um fato ou a um objeto, apenas para que o mesmo seja o impulsionador da história, fazendo as ações se desenrolarem e dando a oportunidade de o verdadeiro tema do filme ser tratado. No caso, o MacGuffin é o isqueiro de Guy.

A cena climax, a do carrossel, é daquelas que marcam, pela originalidade. Numa análise mais fria, ficam evidentes alguns problemas conceituais na cena. O primeiro deles é o fato de um homem, ao tentar fugir da polícia, escolher como “meio” de fuga um carrossel. É algo similar às escolhas feitas pelos personagens de James Cagney em “Fúria Sanguinária” e de Robert Ryan em “Casa de Bambu”, que escolhem fugir para o topo de uma refinaria e de uma roda gigante, respectivamente. As chances concretas de uma fuga ficam reduzidas a zero. O segundo fato que incomoda bastante (apesar de ser algo até comum no cotidiano de algumas cidades) é o do policial que já chega atirando em direção ao carrossel, sem nem se importar com as inúmeras crianças que lá estão. Mas, talvez, tais detalhes apenas façam a cena ser ainda mais memorável. A cena tem, ainda, seu momento cômico, quando o funcionário idoso se dispõe a rastejar por baixo do carrossel para interromper seu movimento desgovernado. Consta que a cena foi feita sem dublês, o que torna a coisa toda ainda mais interessante.

 

Mas é a seqüência anterior à do carrossel que se tornou a mais importante do filme (e uma das mais citadas e significativas seqüências da carreira de Hitchcock). A dualidade que marca todo o filme é levada ao extremo, quando os dois protagonistas, Guy e Bruno, correm contra o tempo para tentarem chegar ao mesmo lugar, a cena do crime. Cansado de esperar que Guy cumpra sua parte no pacto, Bruno quer estar lá assim que escurecer, para deixar o isqueiro de Guy e, assim, “plantar” uma prova falsa que o incrimine. Já Guy, ciente das intenções de Bruno, quer estar lá a tempo de recuperar seu isqueiro e, se possível, desmascarar Bruno para a polícia. E a construção das cenas é feita de modo a criar o maior suspense possível a partir das ações dos dois. Guy está no meio de uma partida de tênis. Quer acabar o mais rápido possível com o jogo (mas também não pretende entregar a partida). Assim sendo, cada erro, cada ponto do adversário tem um sentido ainda mais doloroso do que de costume. Já Bruno, que parece estar em vantagem na “corrida”, até que o isqueiro cai em um bueiro, fazendo com que perca minutos preciosos.

A seqüência do bueiro é, por si só, digna de vários comentários. Hitchcock exercita ali o que mais gostava de fazer, ou seja, “manipular” as reações do público. A cena é tão bem montada que é impossível não torcermos para o vilão Bruno. Curiosamente, em todas as vezes que vi o filme junto com outras pessoas, percebi que todos têm exatamente essa reação, o que prova o sucesso do diretor.

 

Entre os atores, destaque absoluto para a atuação de Robert Walker, no papel do perturbado vilão Bruno Anthony. Ele simplesmente rouba todas as cenas em que aparece. É, certamente, uma das melhores atuações em todos os filmes de Hitchcock. Lamentavelmente, porém, o ator não teve tempo de confirmar seu talento, pois morreria ainda em 1951, com apenas 32 anos de idade, de parada respiratória, após receber uma injeção de seu psiquiatra. Perto de Robert Walker, Farley Granger some. E isso veio enormemente a calhar, já que a mesma dinâmica se repete com os personagens (Bruno domina e Guy é meio que dominado).

 

Este filme é a inspiração para “Jogue a Mamãe do Trem”, em que Danny De Vito faz a Billy Cristal o mesmo tipo de proposta doentia.

por Alexandre Cataldo

2 comentários sobre “Resenha #28 – Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951)

  1. Parece ser so mais um simples filme lendo a sinopse, mas com o Hitchcock na direção tudo se transforma.Atução, roteiro, fotografia, tudo em sintonia na busca do melhor resultado. Eu acho genial, mas alguns enchergam apenas como entretenimento.

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