Resenha #29 – Ran (Ran, 1985)

Ran é provavelmente um dos últimos grandes filmes de Akira Kurosawa. Ele foi produzido em 1985, num período pouco prolífero (em termos de quantidade de filmes) do japonês, época em que praticamente realizava um filme a cada cinco anos (fato corriqueiro entre 1965 e 1990). Entretanto, o filme é consagrado como um dos melhores de Kurosawa e como poucos na filmografia do mestre, foi feito a cores. O longa é de uma beleza notável e consegue como poucos, dar uma interpretação visual impressionante a partir da obra literária de Shakespeare, intitulada King Lear (Rei Lear, no Brasil).  Suas cores, seus planos, sua direção de arte e sua fotografia são primorosas, bem como a atuação dos atores centrais, sobretudo Tatsuya Nakadai, que interpreta Hiderota, o ponto central de um clã no Japão feudal que traça paralelos com a Bretanha de Lear.

 

Ran talvez seja o filme do diretor que mais dialogue com as idéias originais concebidas por Shakespeare ao escrever sua história. Apesar de ter modificado alguns personagens e ter deixado de lado outros, aqueles centrais, que se encarregam de mover a narrativa para frente, estão presentes e com uma força impressionante.  Em Ran (que em português significa “caos”), Lear é substituído pelo Lorde Hiderota, chefe de um clã e pai de três filhos, o primogênito Taro e os outros dois: Jiro e Saburo. Como na peça, logo de início ele toma uma decisão que o colocará em perigo a partir daí: apesar do protesto de seus outros dois filhos, decide abdicar de seu trono e ceder seu comando para seu filho mais velho. É especialmente interessante notar que Kurosawa substitui as três filhas do original de Shakespeare por três homens, mas no entanto, como veremos durante o filme, é a influência de uma mulher que trará o caos para o feudo.

 

A adaptação japonesa do texto do dramaturgo inglês comporta inúmeros detalhes da peça, mas nos dá, a sua maneira, uma visão particular sobre os conceitos de família, tragédia e traição na visão oriental. Kurosawa mantém com certo rigor o desenrolar dos diálogos e símbolos contidos na obra original, e cabe destacar que isso se deu ao longo dos dez anos em que escreveu o roteiro de Ran. De início, a intenção era apenas desenvolver algumas histórias antigas da cultura japonesa, mas durante seus escritos, o diretor resolveu aos poucos tomar a peça como base, executando mais uma vez uma fusão do simbologismo ocidental com os valores orientais.  Um dos símbolos que Kurosawa substitui da peça para seu filme é o da tempestade, famosa por representar o marco da loucura do Rei Lear. Hiderota, ao contrário, enlouquece em meio a chamas, quando ordenado por seus filhos Taro e Jiro, um ataque é feito à sua mansão, condenando a mesma ao “fogo do inferno”.  É especialmente notável a construção da cena onde isto acontece, com o uso da música e da violência explícita presente nas tomadas, de tal forma que se torna extremamente impactante a imagem de Hiderota aplacado pela loucura, caminhando em meio aos seus inimigos e deixando ao fundo, o castelo que arde em chamas. É nesta cena inclusive, que podemos notar a genialidade de Kurosawa ao interpretar as idéias do texto shakespeariano, dando mais uma vez a indicação de que foi o melhor cineasta a tratar destes simbologismos.

por Fred Almeida

4 comentários sobre “Resenha #29 – Ran (Ran, 1985)

  1. Ran tem um ritmo que deixa grudado no filme ate o final, não tem barriga. Pra mim Kurosawa quis mostrar com esse filme o horror da guerra, nilismo e qestionar a existencia de deus. Mas um filmaço do Kurosawa que vai entrar pra minha lista de favoritos.

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