Resenha #31 – Laura (Laura, 1944)

Muito mais que apenas um ótimo filme noir, “Laura” é um dos grandes filmes da década de 40, muitos dos quais andavam meio esquecidos e estão aos poucos ganhando uma nova geração de admiradores, graças ao advento do DVD.

 

É muito difícil falar sobre “Laura” sem estragar a diversão de quem ainda não viu o filme, pois lá pela metade do filme há uma guinada radical na história. O enredo de “Laura” é daqueles que parecem comportar vários níveis de interpretação:  se superficialmente parece ser apenas um suspense policial, basta um pouco de atenção para percebermos que o tema principal é a obsessão de vários homens por uma mulher.

 

A linda Laura Hunt, dona de uma agência de publicidade, parecia ser uma mulher que atraia a atenção de todos os homens que cruzavam o seu caminho.  O filme, que começa com ela já morta, acompanha a investigação de seu assassinato. Seguindo a cronologia que é apresentada pelo filme, o primeiro é o colunista Waldo Lydecker (Clifton Webb, indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante pelo papel), um cinqüentão com claros indícios de bissexualidade que, mais do que alavancar a carreira de Laura e agir como seu mentor, se mostra o mais obcecado de todos, fazendo o possível para tirar do caminho qualquer outro homem que se aproxime de Laura.  É através da narração de Waldo que a primeira metade da história nos é apresentada.

 

O segundo é o bom vivant Shelby Carpenter (Vincent Price) que, apesar de ter a possibilidade de viver do dinheiro fácil da solteirona Ann Treadwell (Judith Anderson), está noivo de Laura. Já o detetive durão Mark McPherson (Dana Andrews), encarregado de desvendar o assassinato de Laura, parece estar em certa desvantagem em relação aos demais, afinal não chegou a conhecer a moça.  Tudo o que sabe dela é o que lhe é contado por Waldo durante as investigações e a sua imagem, retratada num belo quadro na casa de Laura.  Incrivelmente, até McPherson fica fascinado com a imagem de Laura.

 

A cena mais lembrada é justamente aquela que não deve ser contada a quem ainda não viu o filme e que muda completamente o andamento da história.  É como se um novo filme começasse.  Durante uma noite de investigações, sozinho no apartamento da falecida Laura, McPherson, já transtornado com o seu próprio envolvimento emocional com o caso e após algumas doses de bebida, adormece numa poltrona, contemplando o quadro de Laura.  Ao acordar, está diante da própria, em carne e osso.  Poderia até se tratar de um sonho (e muitos que comentam o filme chegam a citar essa hipótese como bastante plausível), mas não é.  Laura está viva e a história ganha novos contornos.  McPherson sente que há possibilidades de concretizar sua fantasia, ainda mais quando Laura lhe conta que decidiu não se casar com Shelby.  Mas se Laura está viva, de quem é o corpo encontrado?  McPherson ainda é o encarregado do caso, precisa descobrir.  E a própria Laura está entre os suspeitos.

A direção de Otto Preminger é magistral, abusando dos chamados planos americanos, em que há vários personagens na tela ao mesmo tempo, cabendo ao público perceber as diversas nuances e expressões de cada um.  A trilha sonora de David Raksin, que se tornou bastante popular nos Estados Unidos, ajuda a fazer desse filme o mais requintado entre os filmes noir.

 

O elenco, se não tem nenhum ator fora-de-série, parece perfeito para o filme.  A beleza de Gene Tierney dispensa comentários.  Quem melhor que ela para interpretar Laura, objeto de fascinação de tantos homens?  Já Dana Andrews (geralmente classificado com um bem sucedido “canastrão”) cai como uma luva no papel do sisudo detetive McPherson, que só esboça um sorriso quando Laura diz que não mais se casará com Shelby.  Vincent Price, com sua presença marcante, e Judith Anderson, sempre soturna e ligeiramente amedrontadora, completam o eficiente elenco principal.  Mas o destaque, sem dúvidas, é para Clifton Webb, que interpreta o afetado Waldo Lydecker, no papel de sua vida, retornando às telas após 20 anos de ausência (desde a era do Cinema mudo, portanto).

 

Faz algum tempo, “Laura” foi lançado no Brasil em DVD duplo, pelo selo da Fox Classics.  No disco de extras, há documentários sobre dois dos atores principais:  a linda Gene Tierney e o carismático Vincent Price, que se tornaria muito famoso, principalmente graças aos filmes de terror.

por Alexandre Cataldo

3 comentários sobre “Resenha #31 – Laura (Laura, 1944)

  1. Laura é filme excelente, é o meu favorito da filmografia do Otto Preminger. A primeira vez que eu vi este filme foi na tv cultura no extinto clube do filme apresentado pelo rubens ewald filho. A cena em que o ator Dana Andrews tira uma calibre 12 de cano cerrado de dentro do relógio, é a minha preferida.

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