Resenha #35 – A Grande Ilusão (All The King’s Men, 1949)

 O romance escrito por Robert Penn Warren, ganhador do prêmio Pulitzer, sobre a ascensão e a queda de um político populista foi magistralmente levada às telas neste filme, pelo diretor Robert Rossen. Deixemos nossas preferências políticas de lado e façamos um enorme esforço para não notar as similaridades entre o protagonista Willie Stark e o nosso querido presidente. Ainda assim, a história nos parece tremendamente familiar, ganhando ares quase de “documentário” ao mostrar algo que especialmente nós, brasileiros, conhecemos bastante bem: políticos que, valendo-se do chavão “os fins justificam os meios”, não poupam nada nem ninguém em sua trajetória.

 

Mesmo com essa sensação de que “já vimos isso antes” (ou até mesmo por isso), o filme consegue surpreender, pelo modo como mostra a decadência moral de Stark e de seu séquito, em boa parte contado sob o ponto de vista do jornalista Jack Burden (John Ireland), inicialmente encarregado de fazer uma matéria sobre o político e que depois, atraído pela falsa impressão de honestidade e comprometimento de Stark, passa a ser um de seus homens de confiança. Quando Burden começa a duvidar da honestidade de Stark, já é tarde demais e tanto ele quanto a mulher que amava (e que agora é amante de Stark) e o tio dela (um respeitado e aparentemente incorruptível juiz) têm suas vidas completamente afetadas pela sombra da corrupção.

 

O mais interessante é que, assim como Burden, nós também somos inicialmente levados a acreditar na decência e nas boas intenções de Willie Stark. E ao longo de sua ascensão não conseguimos discernir perfeitamente se tudo não passara de um engano nosso (e ele era corrupto desde sempre), ou se ele havia se transformado aos poucos, ou ainda se ele continuava sendo um homem decente (mas que havia aprendido a “jogar o jogo” e usar todos os meios para obter o que queria).

 

Uma das cenas mais marcantes é a do acidente na escola, seguida do enterro das crianças, eventos nos quais Stark é alçado à condição de “salvador da pátria”, um líder que o povo acredita ser capaz de fazer frente aos políticos tradicionais. O personagem de Willie Stark é baseado em Huey Long, senador e governador da Louisiana, que inspirou a obra original escrita por Robert Warren.

 

O filme teve 7 indicações ao Oscar, merecidamente levando as estatuetas de filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge). Crawford tem aqui, sem qualquer dúvida, o papel mais importante de sua carreira (papel recusado por John Wayne). Quanto a McCambridge, até impressiona saber que era uma estreante neste filme. Trata-se de uma atriz que considero sensacional, com uma marca própria em suas interpretações de mulheres fortes em outros filmes também (“Johnny Guitar” e “A Marca da Maldade”, por exemplo) Consta que ela ganhou o papel quando, furiosa com a longa fila de espera para fazer o teste, deixou o local xingando os produtores.

 

Don Siegel dirigiu as cenas de campanha eleitoral. Existe uma refilmagem de 2006, com Sean Penn como Stark e Jude Law como Burden (que eu particularmente achei bem inferior).

por Alexandre Cataldo (dezembro/2006)

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