Resenha #37 – The Up Series (1964 a 2012)

O recente “Boyhood”, filme de Richard Linklater que se propôs a registrar numa obra ficcional o crescimento real de um menino ao longo de doze anos, tem uma interessante premissa, mas que fica um tanto diminuída ao se comparar com o trabalho de Michael Apted para construir um dos melhores documentários já feitos.  Apted (que chegou a dirigir James Bond em “O Mundo Não é o Bastante”) pegou o trabalho de Paul Almond no primeiro episódio da série (o média-metragem “Seven Up!”, de 1964) e fez um registro de mais de quarenta anos da vida de treze crianças (no início são quatorze e algumas vão e voltam até o final da série, mas um abandona o projeto no meio), sempre de sete em sete anos, para acompanharmos a vida daquelas pessoas ao longo do tempo. São mais de dez horas de documentário, divididos em oito partes e as crianças começam com sete anos (“Seven Up!”) e terminamos por vê-las adultas com 56 primaveras (“56 Up!”, de 2012).

 

O projeto é ambicioso desde o início: primeiro cabe ressaltar a força de vontade de manter um projeto vivo ao longo de tanto tempo e depois, impressiona a dificuldade que deve ter sido convencer todos os entrevistados a participar ao longo de cada oportunidade, quando abrem suas vidas para o público inglês (o documentário se tornou um popular programa da TV inglesa, sempre esperado ansiosamente a cada sete anos).

 

A tese que o diretor e produtores pretendem comprovar tem lastro na ideia de que se pode pegar uma criança com até sete anos e dizer que tipo de adulto ela se tornará. O resultado é um registro bastante complexo e sincero da vida destas pessoas, oriundas de diversas camadas da sociedade inglesa. Acompanhamos suas ambições, suas conquistas, seus fracassos e os obstáculos que têm que superar ao longo de suas jornadas pessoais. Entre diversas passagens, há uma pessoa que chega à suprema corte inglesa, indo e voltando ao longo da série; em outra ocasião, rola uma discussão séria de um dos entrevistados com o diretor e a câmera registra o ocorrido; em outra oportunidade, observamos ansiosos um entrevistado de personalidade complexa, que ao longo da série julgamos que ficará louco até o fim do programa. Muitos outros conflitos surgem e podemos nos relacionar a vários deles e para que nunca fiquemos perdidos, a cada episódio há uma breve repetição de parte do primeiro, mantendo o foco na ideia da tese inicial: podemos mesmo traçar o caminho do adulto através da observação da criança que ele foi?

 

Em suma, um grande documentário, que diz muito sobre a vida neste planeta, desperta uma série de reflexões e embora tenha também um viés de discutir a sociedade de classes inglesa, algo um tanto diferente da brasileira, revela diversos pontos em comum com o nosso modo de vida. Um filme que dá prazer de assistir e acompanhar como série e cuja qualidade e profundidade na abordagem do tema manteve a atenção do público inglês ao longo de vários anos e deveria também despertar a curiosidade de qualquer ser humano. E para quem gostou, fica a pergunta: em 2019, teremos o “63 Up!” ? Só o tempo e o senhor Michael Apted dirão.

 

por Fred Almeida

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