Resenha #38 – A Espada Bijomaru (Meitô Bijomaru, 1945)

O diretor Kenji Mizoguci é reconhecido, pelos cinéfilos ocidentais, como um dos três grandes diretores japoneses antigos, juntamente com Ozu e Kurosawa. Desde que vi pela primeira vez um filme de Mizoguchi, já há mais de uma década (e foi aquele que geralmente é o primeiro visto por qualquer cinéfilo, “Contos da Lua Vaga”, seu filme mais famoso), percebi que estava diante de um diretor fundamental para o cinema como um todo. Sua câmera fluida, valorizando enormemente cenários e atuações, encanta até mesmo quem assiste a um filme sem prestar atenção nesses detalhes. Claro que, na época, fui atrás de outros mais comentados, como “Oharu – A Vida de Uma Cortesã” (que depois vim a saber que por muitos é considerada “a quintessência de Mizoguchi”, como bem coloca o crítico Sergio Alpendre, profundo conhecedor e admirador da obra do diretor), “Intendente Sansho”, “Crisântemos Tardios”, “Os Amantes Crucificados”, “Senhorita Oyu”, “As Irmãs de Gion”, “Elegia de Osaka”, “Música de Gion” e sua versão (em duas partes) da clássica história dos “47 Ronin”. Além deles, ainda pude ver dois gendai-geki (histórias contemporâneas) que abordavam o mundo das prostitutas, “Mulheres da Noite” e “Rua da Vergonha” (seu último filme, do mesmo ano de sua morte, 1956).

 

Afirmo que é um diretor com o qual, como costumo classificar para mim mesmo, “eu tinha 100% de aproveitamento” (no sentido de que havia gostado de todos os filmes que havia visto). Mas fazia algum tempo que eu não assistia a filmes de Mizoguchi. A notícia, esta semana, de que a distribuidora Versátil está prestes a lançar um segundo volume da coleção “O Cinema de Mizoguchi”, reacendeu minha admiração. Dos títulos a serem lançados, não assisti a apenas um deles, “A Mulher Infame”). Enquanto aguardo, resolvi ler um pouco mais sobre o diretor, e buscar outras obras. E, para minha surpresa, que estava acomodado naquela crença costumeira de que “ah, já vi tudo o que havia de mais relevante dele, o resto é dispensável”, assisti esses dias a mais dois filmaços dele: “A Imperatriz Yang Kwei-Fei” (que conhecia só de nome) e “A Espada Bijomaru” (nem isso).

 

“A Imperatriz Yang Kwei-Fei”, um dos únicos dois filmes coloridos de Mizoguchi (juntamente com outro do mesmo ano de 1955, “A Nova Saga do Clã Taira”), prendeu minha atenção pela beleza das cores, pelo tom fantástico em que personagens falecidos “conversam” com os vivos (comum na obra de Mizoguchi) e pela satisfação de ver novamente juntos Machiko Kyô e Masayuki Mori, o casal assaltado pelo bandido Tajomaru no evento central do grande “Rashomon”, de Kurosawa.

 

Mas foi “A Espada Bijomaru”, de 1945, que me fez começar a suspeitar que realmente Mizoguchi fez muitas mais obras-primas do que suspeitava minha vã e rasa cinefilia. A história aparentemente simples, do aprendiz forjador de espadas que tenta agradar seu benfeitor, presenteando-lhe com uma espada perfeita, mas que, após uma reviravolta, precisa forjar uma espada mais perfeita ainda para vingá-lo, ganha contornos únicos pelo fato de que ele terá a lhe auxiliar a filha de seu benfeitor, por quem é apaixonado. É bom ter em mente que a maior parte da obra conhecida de Mizoguchi tem como tema principal as angústias e adversidades enfrentadas pelas personagens femininas.  Aqui não é diferente, mas a moça (interpretada pela grande Isuzu Yamada), foge do estereótipo da submissão.  É uma excelente espadachim e vai atrás da vingança, tarefa geralmente masculina nos jidai-geki. Do que vi, é caso único no cinema japonês antigo (claro que teremos Uma Thurman bem depois, nos dois “Kill Bill” de Tarantino).

As cenas das espadas sendo forjadas e depois testadas, quase didáticas e repetitivas, dão bem a noção da dificuldade da tarefa e de que ali não se tinha apenas metal, mas um objeto que carregava a alma do forjador. Cena belíssima a do rapaz que imagina a moça ali presente, martelando o metal junto com ele. E o grande plano do duelo final, em deslocamento linear, num travelling de quase dois minutos, é mais uma mostra da maestria de Mizoguchi com sua câmera fluida. Ainda que possa ser criticado e reduzido a apenas um filme de propaganda do final da Segunda Guerra, cuja mensagem principal seria a de que o guerreiro que põe sua alma no seu armamento pode ser invencível, acho que é mais um daqueles exemplos em que “o cinema supera a ideologia”, como eu penso que ocorreu também com o filme de Kalatozov, “Soy Cuba”, que pode ser apreciado hoje como obra cinematográfica poderosa, independentemente dos fins ideológicos com que foi criado na época.

 

Resta-me, agora, aguardar a nova caixa, para poder rever algumas obras-primas (como “Intendente Sansho”, “Crisântemos Tardios”, “Elegia de Osaka”, “Música de Gion” e “Rua da Vergonha”) e conhecer “A Mulher Infame” e continuar garimpando o que resta (e já considerando que, infelizmente, a maior parte de seus filmes dos anos 20 se perdeu, assim como alguns dos anos 30), como “Senhora Musashino”, “O Retrato da Senhora Yuki”, “Chama de Meu Amor”, “Utamaro e Suas Cinco Mulheres”, “A Canção da Vitória”, “A Feiticeira das Águas” e “A Decadência de Osen”., além de sua versão de “Miyamoto Musashi”.

por Alexandre Cataldo

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