Resenha #52 – Na Garganta do Diabo (1960)


Ambientado durante a Guerra do Paraguai e filmado em locação às margens das Cataratas do Iguaçu, este raro longa-metragem de Walter Hugo Khouri, se não tem a qualidade e intensidade do ótimo “Noite Vazia”, de 1964, pelo menos já indicava uma trajetória naquela direção, inclusive no sentido de explorar a sensualidade e presença de tela da atriz Odete Lara.

 

O argumento do filme gira em torno de uma fazenda que é invadida por três desertores da Guerra do Paraguai e um índio que os acompanha. O ator Luigi Picchi faz Pedro, o líder do grupo e junto dele viajam o paraguaio Quintana (José Mauro de Vasconcelos), Reis (André Dobroy) e o índio (Milton Ribeiro). Na casa da propriedade, o patriarca interpretado por Fernado Baleroni sobrevive com as belas filhas Ana (Odete Lara) e Mirian (a catarinense Edla Van Steen) e um passado que envolve a morte de seu filho como retaliação pelo comércio de gado com o inimigo. O que vem a seguir envolve a relação entre os soldados e as filhas sedentas por escapar daquele ambiente hostil, um suposto tesouro e uma história de acerto de contas com uma tribo indígena.

 

Se o roteiro não é totalmente inspirado, a atmosfera criada por Khouri e seu fotógrafo Rudolf Icsey funciona para imprimir um clima de tensão e boa dose de angústia no interior claustrofóbico da casa da fazenda, contrastando close-ups das atrizes com os planos gigantescos das cataratas por meio de diversas fusões. Icsey, austro-húngaro importado pelo cinema nacional e frequente colaborador de Khouri (com quem fez “Estranho Encontro”, “A Ilha”, “Noite Vazia”, entre outros), utiliza da sua experiência para criar um visual de altos contrastes e sombras e junto com a trilha sonora igualmente sinistra de Gabriel Migliori (de “O Pagador de Promessas” e “O Caganceiro”) colabora para tirar o espectador do conforto, culminando numa cena final à beira das cataratas que é para ficar algum tempo na memória.

Se não é um filme perfeito (longe disso), serve para conhecermos mais um bom item da filmografia de Walter Hugo Khouri, diretor que, na minha opinião,  tem sim algo a dizer. Ao que tudo indica, a única cópia disponível é uma dublada em inglês para distribuição internacional, mas isso não chega a atrapalhar o desenrolar da trama, já que o forte do filme passa mesmo pela exploração visual de certas imagens.

 

O filme faturou um prêmio no Festival de Mar Del Plata, em 1960 e nos Estados Unidos teve dois títulos: se chamou “In The Devil’s Throat” ou “Iguassu”.

por Fred Almeida

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