Resenha #55 – Solidão (Lonesome, 1928)

O austro-húngaro Pál Fejös havia feito diversos filmes em sua terra natal antes de ir para os Estados Unidos na década de 20 perseguir sua formação profissional como químico.  Mesmo trabalhando para o Instituto Rockfeller como assistente, ele não abandonou sua verdadeira paixão e em 1927 produziu com recursos próprios – pela bagatela de U$ 13.000,00 – um pequeno filme avant-garde que tratava sobre o tema do suicídio, com a história contada em retrospectiva pelo próprio suicida, ao longo de seu processo de afogamento num lago. O filme “The Last Moment” tinha como uma de suas maiores virtudes o fato de não possuir nenhum intertítulo (algo difícil na época) e ter diversas ideias elaboradas através de fusões e outros efeitos óticos criativos. Foi Charles Chaplin que viu este trabalho de Fejös e, impressionado, decidiu distribuir a película pela sua United Artists, o que a transformou em sucesso de público e crítica. Isto chamou a atenção de outro estúdio: a Universal agora estava decidida a dar a Fejös um novo projeto.

 

Nasceu desta maneira o interessante “Solidão” (conhecido originalmente por Solitude, depois Lonesome), um filme com premissa extremamente simples, mas de composição criativa e eficiente. Duas pessoas solitárias vivem na cidade grande e têm suas vidas comuns como trabalhadores ordinários.  Num belo dia de folga se encontram num festival, vão à praia juntos e por um momento se perdem.  Neste ponto estão claramente apaixonados e sem saber como entrar em contato um com o outro – não havia WhattsApp naquela época! – dando início a uma busca frenética e um tanto angustiante para nós espectadores.  Ouvindo uma historinha assim, à princípio talvez não fiquemos com a impressão de que se trata de um filme interessante, mas se tomarmos o tempo para pensar um pouco em outros excelentes longas do período com premissas simples como “A Turba” (The Crowd, 1928) e “Aurora” (Sunrise, A Song of Two Humans, 1927) já podemos – e devemos – dar uma chance ao filme de Fejös. E seremos bem recompensados por isso.

 

Não há como ter certeza sobre o quanto “Solidão” deve sua forma à “The Last Moment” já que este último é até hoje dado como perdido, mas tudo indica que as fusões de imagens e uso inteligente da montagem são tão impressionantes como devem ter sido aquelas da projeção que deixou o tal Sr. Chaplin de queixo caído. Aqui também Fejös é extremamente econômico no uso dos intertítulos, utilizando desses recursos para contar sua história. O filme ainda se dá ao luxo de ter três pequenas cenas sonorizadas que não chegam a ser o ponto alto do filme, pois têm mais um caráter de experimentação com a novidade do som do que qualquer outra coisa. Além disso, como era comum neste início do cinema falado, os atores Barbara Kent e Glenn Tryon não parecem muito à vontade para expressarem os pobres diálogos. A cópia disponível por aí tem também alguns planos tingidos à mão, criando um efeito de colorização para pequenos momentos do filme.  Mas esses detalhes são apenas curiosidades, pois a virtude do longa está na excelência da exploração de suas imagens e no domínio da ação paralela para nos envolver com a história simples e – porque não – comum.

por Fred Almeida

Deixe aqui sua opinião sobre isso!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s