Resenha #66 – Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951)

A força da peça “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tenesse Williams, na qual este filme foi adaptado, está em seus personagens, todos eles fiéis caricaturas do mundo em que vivem, produtos de um pós segunda-guerra e marginais ao processo do então chamado, “american way of life“.  A obra de Williams e a brilhante direção de Kazan se esmeram em mostrar uma América que saía da guerra tentando reconstruir o mundo, posando de perfeita, mas no entanto carregando por baixo desta superficialidade sérios problemas causados pelo terror do combate na Europa.

 

Para interpretar grandes personagens no roteiro assinado pelo próprio Tennessee Williams, Kazan trouxe um quarteto de atores no auge de suas formas: Marlon Brando, Vivien Leigh, Kim Hunter e Karl Malden atuam com perfeição, cada um servindo fielmente a seus personagens, complexos e interessantes, densos, bem desenvolvidos, como no texto de Williams.

 

Stanley Kowalski (Brando) é o americano sobrevivente da guerra na Europa, um tipo bruto, grosso, impulsivo e que praticamente só consegue se expressar por meio da violência, seja contra sua esposa, cunhada ou mesmo amigos. Intolerante, cruel e burro, faz uso de sua sexualidade para cativar a esposa, Stella Kowalski (Kin Hunter). Esta tenta juntar os cacos da família quando sua irmã Blanche DuBois (Vivien Leigh) vem visitá-la. A personagem Stella é o ponto de equilíbrio da trama, tentando conciliar a violência do marido com a loucura da irmã e ainda tendo que se preocupar com um filho que está a caminho. Parece funcionar na trama como a parte da sociedade americana que tenta sobreviver da maneira que pode, não perdendo esperanças ou parafusos, como no caso de Blanche. A irmã de Stella, que chega no bonde chamado desejo, traz consigo um passado promíscuo e insano, retrato de uma América que vive de um sonho que não existe, um imaginário criado para manter uma aura de perfeição e sucesso, mas que no fundo, chora a morte de seus filhos em solo europeu. Blanche aspira por dias mais honrados quando flerta com Harold Mitchell (Karl Malden) que a princípio nutre esperanças por ter encontrado uma mulher decente para casar. Mitchell é quase que a inocência encarnada, tenta ser cordial e correto, cortejando a mulher que confia ser pura e casta, mas que depois descobre ter um passado de mentiras e promiscuidade.

 

A interação dos personagens e os conflitos criados servem de palco perfeito para o desfile das brilhantes atuações de todo o quarteto, completamente à vontade em seus papéis, trazendo uma força incrível para a obra do escritor que agitou o teatro na década de 50, expondo as mazelas de uma guerra brutal, que trouxe conseqüências vitais até mesmo para os vencedores.

por Fred Almeida

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