Resenha #73 – Fogueira de Paixão (Possessed, 1947)

Sendo o filme noir um gênero intimamente ligado aos gêneros policial, criminal, mistério e até mesmo aos filmes de gangster, é natural que eles despertassem maior interesse no público masculino. Este certamente foi um dos motivos que fez com que os estúdios (especialmente a Warner), na esperança de atrair o público feminino, produzissem filmes do gênero protagonizados por mulheres e reforçassem o tom melodramático. Temos “A Carta”, com Bette Davis, e temos uma seqüência de filmes com Joan Crawford no papel principal (“Alma em Suplício”/”Mildred Pierce”, “Acordes do Coração”/”Humoresque”, “Os Desgraçados não Choram”/”The Damned Don’t Cry”). Evidentemente, não havia muitas atrizes capazes de substituir os Mitchuns ou os Bogarts da vida no papel de protagonistas noir. Aquela aspereza, aquela descrença nos valores, típica de tais personagens, só poderiam recair sobre mulheres se elas fossem interpretadas por algumas poucas atrizes capacitadas. E, sem dúvida, Joan Crawford era uma delas (as outras, talvez, Barbara Stanwyck e a já citada Bette Davis). Ainda que ela possa ser “acusada” de ter se fixado em um certo tipo de papel (o da mulher possessiva ou dominadora ou vingativa, mas sempre um pouco desequilibrada), o fato é que quando ela está na cena, não sobra pra mais ninguém.

Pois em “Fogueira de Paixão”, um bom filme, temos exatamente isso. Trata-se basicamente de um melodrama, com estética e narrativa bem próximos do noir, mas com Joan Crowford fazendo o papel principal, da enfermeira Louise que vai aos poucos sucumbindo emocionalmente, ao ser seguidamente rejeitada pelo homem que ama. Aliás, aqui temos que fazer uma consideração importante: somente em melodramas dos anos 40 é que se poderia aceitar que uma mulher enlouquecesse (clinicamente falando) por causa de uma rejeição.  Ironicamente, podemos até dizer que o personagem de David Sutton (Van Heflin) executa a função que normalmente seria da femme fatale. Seria um autêntico homme fatale, então.

O filme é capaz de prender o interesse, apesar de, como vários outros filmes da época, basear praticamente toda a trama em reações que só os psiquiatras são capazes de explicar e entender. Tem boas cenas, como a de abertura, em que vemos Louise vagando pelas ruas quase desertas de Los Angeles. Consta que Joan Crawford filmou de “cara lavada”, sem qualquer maquiagem, o que seria bastante atípico pra ela, ainda mais em se tratando de uma filmagem em locação, fora dos estúdios e possivelmente com um grande público assistindo às filmagens.

Ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por este filme, mas não venceu, como havia conseguido dois anos antes com “Mildred Pierce”.

Não confundir com outro filme, de 1931, também com Joan Crawford e também chamado “Possessed”.

por Alexandre Cataldo

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