Resenha #79 – Os Infiltrados (The Departed, 2006)

Novos filmes de diretores consagrados geralmente chegam acompanhados de alguma expectativa.  Público e crítica estabelecem comparações com o passado e imaginam se o diretor vai manter o nível de suas grandes obras ou mesmo se será capaz de superá-las.

Quando este diretor é Martin Scorsese, cujos filmes mais recentes (“Gangues de Nova Iorque” e “O Aviador”) não foram propriamente sucessos de crítica, essa expectativa é ainda maior.  Até porque alguns chegam a insinuar que Scorsese “já deu o que tinha que dar” e dificilmente voltará a fazer filmes capazes de alcançar o que “Taxi Driver”, “Touro Indomável” e “Os Bons Companheiros” conseguiram, ou seja, se tornar um clássico moderno. Se isso é uma verdade, é difícil dizer.  Mas com certeza ainda não será com “Os Infiltrados”, seu novo filme, que Scorsese irá comprovar que essas previsões estão erradas.

O cenário (Boston) pode ser incomum para filmes de Máfia, mas os universos da polícia e da organização criminosa (no caso, a máfia irlandesa) são tão conflituosos quanto os de qualquer outro filme do gênero.  Ninguém está seguro, ninguém é totalmente confiável, a tensão é constante.  Cada uma das organizações infiltra um de seus agentes na outra.  É uma história que até pode ser boa, mas que em “Os Infiltrados” fica “batida” demais, incapaz de surpreender.

O filme peca pelo excesso de clichês (como o forçado e irritante fato de os dois protagonistas se envolverem com a mesma mulher) e, mais objetivamente, pelo excesso de ligações de celular.  É gente falando no celular a toda hora, milhares de toques, de vibracalls, de celulares ensangüentados e de chips sendo trocados…Chega uma hora em que a brincadeira cansa.  E olha que o filme, mesmo sem a presença de Joe Pesci, está repleto dos famosos “fucks” e derivados, marcas registradas dos ‘bons Scorsese’.  Mas isso não basta.  Ou, pelo menos, não basta mais.

Leonardo Di Caprio está bem, assim como os coadjuvantes Mark Whalberg, Martin Sheen e a bonita Vera Farmiga.  De Matt Damon, é difícil esperar boas atuações, e por isso não dá nem pra dizer que ele decepciona.  O ponto negativo é Jack Nicholson, que infelizmente parece estar condenado a ser, cada vez mais, quase uma caricatura de si mesmo.

O único e curto momento em que o filme me entusiasmou foi quando o cinéfilo Martin Scorsese falou mais alto que o diretor Martin Scorsese: numa cena quase no final do filme, na saída do cemitério onde acaba de acontecer um funeral, a personagem feminina principal caminha decidida ao encontro da câmera, ignorando solenemente um apaixonado personagem masculino que a aguarda.  Mas infelizmente essa referência clara a “O Terceiro Homem”, clássico filme inglês de 1949, não é suficiente para salvar o filme.

por Alexandre Cataldo (em 2006)

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