Resenha #80 – Vida Contra Vida (Street of Chance, 1942)

Em seu livro “O Outro Lado da Noite: Film Noir”, A. C. Gomes de Mattos cita “Vida contra Vida” como um dos primeiros filmes noir essenciais. Filme bastante raro no Brasil (muito possivelmente não tenha sido lançado nem em VHS), somente através de colecionadores ou na internet é possível encontrá-lo.

Após assistir ao filme, confesso que percebi nele poucas das características tradicionalmente presentes no gênero. Tanto a narrativa quanto a fotografia (esta exceto por alguns breves momentos) são convencionais. Mas é certamente na história, opressiva por excelência, que se baseia a classificação. Baseado num romance de Cornell Woolrich (“The Black Curtain”), um dos autores que mais contribuíram para o noir (“A Dama Fantasma”, “Na Senda do Temor”, “O Anjo Diabólico”, “A Noite Tem Mil Olhos”), “Vida contra Vida” conta a história de Frank Thompson (Burgess Meredith), um homem comum que, após mais de um ano sofrendo de amnésia, recupera subitamente sua “vida anterior” quando é atingido por materiais caindo de uma construção. O problema é que ele não se recorda de absolutamente nada do período em que esteve amnésico e vai aos poucos descobrindo que é o principal suspeito de um assassinato.

O tema do homem amnésico que se envolve em algum tipo de crime e, mesmo após recuperado, quando imagina que vai simplesmente retomar sua antiga vidinha, precisa acertar as contas de seus obscuros atos, é mais que apropriado a um filme noir. Sem saber exatamente em quem confiar, de quem fugir e, principalmente, por que fugir, temos aí o protagonista noir confuso, desorientado e facilmente enganável.  Tema bastante similar seria utilizado posteriormente em “Uma Aventura na Noite”, de 1946.

Burgess Meredith, com seu físico mirrado e sua aparência constante de sofrimento, confere um tremendo ar de submissão a Thompson, o que nos faz duvidar se ele realmente teria capacidade de sair do redemoinho em que se envolveu. Até para conseguir informações de uma idosa inválida e muda, ele tem uma enorme dificuldade.

Claire Trevor, atraente como de costume, dá uma melhorada substancial no filme quando aparece, já quase na metada da fita. Quem já conhece o tipo de personagem que ela costuma interpretar em outros filmes noir (especialmente em “Murder My Sweet”), começa imediatamente a suspeitar que toda aquela doçura em relação a Thompson esconde uma certa dose de maldade.

Ao final de tudo, podemos dizer que “Vida contra Vida” é um bom entretenimento e vale como curiosidade “histórica” dentro do gênero noir, mas não chega a ser propriamente um grande filme.

por Alexandre Cataldo

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