Resenha #85 – Os Emigrantes (Utvandrarna, 1971)/O Preço do Triunfo (Nybyggarna, 1972)

O cinema escandinavo, especialmente o sueco e o dinamarquês, vem de uma longa tradição, iniciada já na primeira década do século passado, por sua vez fundada numa herança artística que remonta às lendas do folclore e à obra de poetas e escritores, como August Strindberg.

Se no princípio destacaram-se, na Suécia, nomes como Mauritz Stiller (cujo “A Saga de Gösta Berling” projetou Greta Garbo) e Victor Sjöström (da obra-prima “A Carruagem Fantasma”) e, na Dinamarca, Benjamin Christensen (de “Haxan – A Feitiçaria Através dos Tempos”), sem dúvida foram Ingmar Bergman e Carl Theodor Dreyer que firmaram a Escandinávia como um manancial de ótimos filmes intimistas, profundas investigações da alma humana.

Mas é sempre bom não se limitar apenas aos diretores mais conhecidos.  Prova disso é Jan Troell, diretor sueco atualmente com 85 anos, que em 1971-72 fez dois filmes baseado na série de quatro romances, extremamente populares na Suécia, escritos entre 1949 e 1959 por Vilhelm Moberg (chamada de a série Os Emigrantes, composta por Utvandrarna, Invandrarna, Nybyggarna e Sista brevet till Sverige), que contam a saga de um grupo de camponeses suecos, em meados do Século XIX, que, cansados da vida de pobreza e dificuldades em Smalanda, emigra para a América e se tornam colonos em Minnesota.

Moberg jamais havia permitido a adaptação de suas obras para o cinema.  Mas após assistir ao filme “Here’s Your Life”, que Jan Troell dirigiu em 1966, gostou tanto que, ao receber nova proposta do Svensk Filmindustri (o grande estúdio sueco, então ainda baseado em Filmstaden, a Cidade do Cinema, nos arredores de Estocolmo), relativamente à adaptação da série Os Emigrantes, aceitou sob a condição de que fossem dirigidos por Troell.

A tarefa de adaptar os quatro romances para um só filme se mostrava impossível e, assim, desde o início do projeto, ficou decidido que seriam dois filmes.  Os produtores estavam preocupados com o custo da produção (o maior orçamento da história do cinema sueco, até então, algo em torno de cinco milhões de coroas) e com a multiplicidade de locações diferentes, na Suécia e nos EUA.  Para piorar, na sala de edição, o primeiro filme ficou bem maior do que o previsto, com mais de 3 horas.  Apesar disso tudo, Os Emigrantes, lançado em 1971, foi um estrondoso sucesso, a maior bilheteria do cinema sueco.

Isso lhe valeu a indicação, na cerimônia de 1972, ao Oscar de melhor filme estrangeiro (que perderia para “O Jardim dos Finzi-Contini”, de Vittorio de Sica). Neste mesmo ano de 1972, o filme seria distribuído nos EUA (com alguns cortes que aborreceram Troell) e repetiria por lá o sucesso doméstico. Resultado:  na cerimônia do Oscar de 1973 (aquela em que “O Poderoso Chefão” e “Cabaret” levaram os principais prêmios), “Os Emigrantes” estava novamente na disputa, agora em outras quatro categorias (melhor filme, melhor atriz para Liv Ullmann, melhor diretor para Troell e melhor roteiro adaptado para Troell e Bengt Forslund).  Naquele mesmo ano, a sequência “O Preço do Triunfo” concorria como melhor filme estrangeiro (perdendo para “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel).

Se o cinema sueco em geral sempre esteve associado a filmes mais intimistas, centrados muito mais no lado psicológico dos personagens do que em eventos, temos nestes dois filmes um contraponto:  tratam-se de dois épicos, recheados de passagens marcantes, mas sem perder o tom intimista, já que nunca deixamos de ver os acontecimentos sob o olhar (e os sentimentos) dos protagonistas, o casal Karl Oscar e Kristina, magnificamente interpretados por dois atores completamente associados aos filmes de Bergman, Max von Sydow e Liv Ullmann.

Um dos destaques dos filmes é o retrato que faz da dureza das vidas daquelas pessoas. Rigores do tempo, falta de boas terras para cultivo (situação real, que perduraria na Suécia até quase meados do século XX, com a mecanização da agricultura) e, ainda por cima, perseguições religiosas: tudo isso, aliado às promessas de maior liberdade e oportunidades na “América”, foram a motivação para os quase 1 milhão de suecos que emigraram até 1920 (cerca de um quarto de toda a população do país). Destaque, ainda, para toda a sequência da travessia do Atlântico, que nos prende de modo muito intenso.

Jan Troell assina também a fotografia do filme, seu primeiro em cores. Achava importante não precisar passar instruções previamente a um diretor de fotografia, para ter a liberdade de, no calor do momento, fazer o enquadramento, movimentação ou efeito que lhe parecesse melhor. Na maior parte das cenas, usou sua própria câmara, na mão. Estilisticamente, mistura planos longos com closes desconcertantes, de rostos e de mãos trabalhando.

Talvez o sucesso dos filmes nos EUA se deva ao fato de que a saga dos suecos emigrados para América era, também, uma história sobre alguns fatos históricos, como os conflitos com os indígenas e a corrida do ouro, e sobre a formação da sociedade americana moderna, um país de imigrantes.  São, nesse sentido, filmes que dialogam com a situação dos imigrantes e/ou refugiados de hoje e de sempre.

No Brasil, ambos os filmes foram lançados numa bela edição pela OP – Obras-Primas do Cinema.

por Alexandre Cataldo

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